Texto: Andressa Arena
Fotos: Ernani Baraldi
Modelo: Andressa Arena (Andressa é atriz profissional, já gravou vários curtas e atuou em diversos espetáculos de teatro, além de ser uma ótima poetisa cheia de criatividade e sentimentos)
Valeu Dessa por este lindo trabalho! “Nani”
O Coração geme tanto, um grito, um sopro, um aperto, cama vazia, prato na pia, aquela sujeira mais íntima no canto que ficou esquecido, para onde ir? A varanda, cinza de fumaça um passarinho se olha na janela da vizinha, a meio fio, entre a rua, o poste e o céu, como o céu está bonito hoje, será que é o mesmo céu do outro lado? Será que estão seus olhos também no céu?
O passarinho, o fio, a rua, sem seus passos que antes eu esperava nessa mesma varanda.
Mais um cigarro. Será que você chega antes de chegar ao filtro? Não, não chega. E eu sempre vou te odiar por isso, e sempre vou te amar por tudo.
O coração geme, o corpo treme, a fúria, o rasgo, o corpo me dilacerando a carne, corroendo a alma o coração que geme.
Os móveis foram carregados, fila de homens que os carregavam, martelavam, desmontavam e carregavam, uns levavam minhas pernas, outros meus braços, as portas do armário, nosso corpo. Não por favor, o abajur não. Adeus! Adeus um pouco de tudo que ficou! Adeus!



Visto a primeira camisa de coragem que encontro, calço as lembranças, aperto bem a camisa para não deixar expandir a dor, lá me é proibido chorar, não há espaço para a fraqueza que sinto, embora ela saiba de tudo sem que eu diga nada, a Tv ligada esconde a palavra não dita, o almoço na mesa, engolir rápido para escapar das perguntas, sim Mãe, ele já chegou lá, sim Vó, nós já nos falamos, sim André é possível que ele já tenha comido a primeira gostosa que apareceu na frente. As contas? To me virando. Pilhas delas, as contas na mesa, a mesa não posta, a luz onde nós nos olhávamos, a água em que nos afogávamos, nos afagávamos, nos amamos tanto. É justo que cobrem tão caro. E onde está você para fazer o mercado? Para trazer o pão quentinho, o chocolate.
O ponto, sinal, respiro, um passo após o outro com cuidado, o transbordamento, a chave no portão, as escadas, elas nunca me pareceram tão grandes, se desfazendo degrau a degrau pisado, primeiros passos meus, assim meio sem pernas, primeiros passos dela, ela chega, se instala. Hora do despacho, lavar tudo, escorrer pelo bueiro. Os amigos chegam, começa a festa, mais uma dose, mais um trago, mais um corpo, desnudar, destruir, esquecer, mais prazer, o corpo dilacerando o coração. Absorto, inerte, vazio.



Sim, você não imagina o quanto foi bom pra mim, seu gozo ácido corroendo meu ventre. Filas de homens carregando meu corpo, meus seios, meu hálito, meus lábios, meus hábitos, minha buceta e meu vazio gozo ácido. Sim meu gozo, olha, eu quero que você veja, olha, eu sei que você vê, olha, eu sei que todos estão a me olhar por você, olha, quantos homens me amaram bem mais e melhor que você, olha até onde eu vim parar pra te esquecer, olha, olha maldito olha, olha, olha, meu peito aberto, a carne exposta, olha a vida que podia ter sido e você abandonou, você me abandonou, você me decepcionou, você me matou. Você matou a vida que podia ter sido.
E eu te odeio por isso, e eu te amo por tudo.
Me rasgo, me gasto, me estupro a alma, me desfaço em pedaços para que mais nada seja seu, nem a cama, nem os pratos, nem a porra das taças de cristais que sua avó deixou, nem essas porras de taças malditas que ainda hei de pisotear em praça pública, aos seus olhos, uma por uma. Nem meu ódio, nem meu amor. Absorto, inerte, vazio. Adeus! Adeus um pouco de tudo que nuca será! Adeus!
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